quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Dos ciganos e outras ausências

Mário era como a madrugada: perto de acordar, mas ainda cheio de sono.
Era um menino feito de coragem e medo. "Ele tem os olhos líquidos",
repetia o avô. E a casa observava, em silêncio, o mar e o rio que
haviam nomeado as suas águas.

Acreditavam que a sua vontade de partir tinha vindo do desamor. Tudo
em sua casa já andava ocupado demais. As cadeiras, as camas, os
pratos. Até mesmo o carinho distribuído. Por muitas vezes ele duvidava
de tudo. Pensava ser um cigano esquecido em porta de família alheia.

Quando eles, os ciganos, surgiam, Mário se fazia rarefeito e ficava
perambulando por entre os panos. Percorrendo a cidade, invadindo
ouvidos, o seu caminhar promovia sonhos. Entre os sons de violinos e
guitarras, de suas bocas ele ouvia um canto bonito, em língua
diferente, que até mesmo o silêncio aquietava para escutar. Com os
corações ameaçados, a cidade dormia. Em seus sonhos havia fugas,
amores, pequenos barcos, grandes mares.

E foi então que descobriram o seu outro segredo: ele comungava a
vontade de fazer-se atraído pelos ciganos e ser roubado por eles.
Porque ser roubado é o mesmo que ser amado. Só roubamos aquilo que nos
falta.

E ele só queria ser ausência, mesmo que fosse a ausência dos ciganos.

Marjorie Bier - Publicitária, cronista cultural do jornal TRI NOTÍCIAS
(Ijuí), contista da revista TRI, blogueira inveterada
http://marjoriebier.wordpress.com/

POETAS DO ACAMPAMENTO DA POESIA DE ENTRE-IJUÍS

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